terça-feira, 11 de abril de 2017

"Altíssimos"


A cruz pelas costas,
as estranhezas
das fés impostas.
Flor de lótus!
Flor do lodo!
Pétalas à parte
miolo de todos.
Queres fazer linha de caminho?

Queres fazer destino
de fé sem gosto?
(Ladainhas de outubro)
Novelas de agosto...

Pregos nas mãos
da tua dor...

Perigos nas mãos
da tua dor,
da tua dor,
da tua dor.
Da palavra da tua dor.
Da sentença da tua dor.
Da tua dor.

Da toada do tocador! 
Da trovoada do trovador!
Salve as cascatas da mãe.
Salve  machado do pai.

Salve as peripécias
de nós, filhos...
E do espírito do porco, também!


Paulo Acácio Ramos & Dante Pincelli
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sexta-feira, 31 de março de 2017

Ave Mão



A minha mão sabe 
O que procura em teu corpo
No meio de todo esse teu
Um bocado do que for meu...

A minha mão desce
Rumo torto
Aos poucos se lembrando
Do que não esqueceu

Eternamente nua a tua mão
Sobre a minha, como uma ave,
Aninha...

Ternamente crua
Minha mão
Lê a tua
Linha após linha
O que de tua vida
Ainda pertence à minha

E assim dadas
Nossas mãos seguem distraídas 
...
Pelas ruas!

Paulo Acácio Ramos & Dante Pincelli
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terça-feira, 14 de março de 2017

Ouvi dizer que me amavas


Pouco me importa
se tu me gostas,
se trazes nas costas
as contas de amor
que jamais fizemos...

Que guardes em malas
empoeiradas de solidão
os restos desse amor
que já jazia em nós...
Antes mesmo de sê-lo.

Cofres de sete chaves
como quiséssemos guardá-lo
protegê-lo de nós e de si mesmo,
como quisessemos usá-lo
antes mesmo de abrí-lo.

E, num átimo, parí-lo,
dividí-lo, mastigá-lo, absorvê-lo.

E guiar-se, perder-se
novelo...

Paulo Acácio Ramos & Dante Pincelli
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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

O Olho do Farol



Debaixo do chão, 
os rios de prata,
a marca das linhas
pretas do carvão.
Chão cravejado
de diamantes
que breve serão pão!

Debaixo da prata,
um rio de chão
desata os cravos...
Escravos da solidão
o amor é um vão...

Entre pernas. 
Por entre as mãos
gotas de âmbar
em lábios úmidos.
Urgência túrgida de ti.

Ausência de senso
na ausência de ti.
Emergência que emerge
na prata do rio...
Da lua do olho.
Urgência de ti.


Paulo Acácio Ramos e Date Pincelli
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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Ardência



Arde em meu corpo
brasa de um fogo que é teu.
Que, ateu, ateias em mim.

Ardem em mim,
atento e sem fim,
chamas que chamam
fogo fim
brasas de mel, 
cedro e marfim...

E meu corpo,
num esforço,
cospe todo teu gosto 
de gozo
sobre flores mortas
de um outro jardim.

Tarda em meu corpo
a flor do teu capim.
Abelha que beija o
copo-de-leite e faz
deleite chama a mim.

Ardo, enfim.



Paulo Acácio Ramos & Dante Saraiva Pincelli

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domingo, 15 de janeiro de 2017

No Chão



tuas formas 
imperfeitas
quadris
peitos
dedos
tuas formas
tão perfeitas...

tua fama mal feita
não condiz
com a graça
do teu pulso
impulso inútil
de correr atrás
de amarrar-te
aos pés da cama

de ir a Marte
em delícias
sacanas

e secar ao sol
e secar ao sol
e secar ao sal

e secar.


Paulo Acácio Ramos & Dante Saraiva Pincelli
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terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Pelos na pele




a pele é brasa
a boca, oceano
o olho é a casa
onde mora o meu engano...

o peito é mágoa
a borboleta é estômago

e tu moras em mim
assim vivo e em brasa
tu moras-me e
às vezes devoras.

lá fora, nada me enche
tudo me falta
quando salta-te
de mim, insólito
e este sou teu!

Na pele e nos pelos
apelo de boca e mão que
tocaria de tocaia
teu âmago

que trocaria carícias
de barba na cara.

segues dentro aqui
nas intrínsecas alamedas
avenidas e searas.


Dante Sarava Pincelli 
Paulo Acácio Ramos

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quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Deitando em Mim



Prevejo-te a adivinhar-me
A fazer-me esquecer-te
Desvelo-me em segredos
Revelo meus azedos.
Atiro-me em ti
Azul meteórico.

Não guardo segredo
Sou o arvoredo
Que dormiu mais cedo
Pra não curvar-se
Ante a ventania.
Retiro-me em ti
Azul metafórico.

Sou jabuti
Antônio, eufórico.
O tempo é simbólico.

Deitas sobre mim, essa cara
De embolia pulmonar
E doença terminal,
Como se fosses uma semente
Que não brota.
Pois que caiu sobre a pedra bruta.
Deitas sobre mim esse olhar
De dinossauro faminto.

Deita…
Deita sobre mim
Algo que seja teu
Tão-somente teu.

Deita sobre mim e esquece
Ou finge que esqueceste
Mas, ainda melhor,
Esquece tudo o que fingiste.
Eu, sob teu deitamento
Finjo que gosto

E nesse gostar pretendido
Ser um ser que devia ser
Ou que querias ter…
Mas não, apenas não.
Não há qualquer possibilidade.
Não há mais quase nada.
Que se possa pretender
Que estivesse a contento
E ao sabor do vento…

Nenhum possível movimento.

Nem um possível envolvimento.

Paulo Acácio Ramos + Dante Saraiva Pincelli
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sábado, 26 de novembro de 2016

(A)De(u)struído




Mumificaram-me
Antes que a noite
Se deitasse
Sobre meus rios
De arenosas e venais
Correntezas inúteis...

Logo EU, tão Deus,
Tão todo, tão mudo
Frente a tudo
Areia de palavras
Imutável senhor
De tantos nadas...

Me calei frio,
É verdade,
Ante às maldades do mundo
Mas antes que pudesse
Ficar mudo
Calaram-me com mordaça de fogo

Fizeram-me estranho
De meus mandamentos
Mandaram-me longe
De seus pensamentos
Colheram-me bólide
Sem ter movimento

Por fim
Sou só
Um imóvel
Um excremento
Ataram-me os trapos
Do próprio esquecimento.

Dante Saraiva Pincelli + Paulo Acácio Ramos

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terça-feira, 22 de novembro de 2016

Que Vida (?)




Vida de segunda
vida de segunda à sexta
vida sem sentido
de não sentir excessos.

Vida em processo
Aventura do medo
Não é segredo:
As artimanhas
Superam as surpresas
Da manhã...

Vida (de segunda)
Tola, vã.

Vida em seguida
sem saída que se veja
sem lugar onde se esteja
bem, ou melhor, muito bem.

vida vaga em primeira
ou em segunda
não arranca nem desvia
vida pouco sã.

Vida como é:
Acelerada em marcha a ré.

Vida que atropela
quem vai de carro e quem vai a pé.

No fim, a morte é certa!

Vida de segunda
vida fajuta que aperta
vida que falha a luta

vida filha da puta.


Paulo Acácio Ramos e Dante Saraiva Pincelli
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