terça-feira, 8 de maio de 2012

I Concurso Língua'fiada de poesias (Homenagem a um lugar)




Para a próxima rodada, os poetas deverão escrever uma poesia contendo as palavras:


“LUMINÁRIA, PRETENSIOSO e AGLOMERAR”
(somente o verbo ‘aglomerar’ pode ser escrito em
 qualquer tempo e pessoa, as outras
 palavras devem ser escritas como aparecem acima)

E enviar até segunda feira dia 14 de maio às 23:59 h.



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O vencedor desta rodada, bem como o comentarista que acertar o vencedor e mais se aproximar de sua pontuação (de 24 a 60 pontos)
ganharão prêmios surpresa.


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POESIA BASEADA NUM LUGAR



Cantar a canção de um lugar, colher seu cheiro, andar seu segredo como um arame fino esticado na lâmina do tempo, sem sombrinha pra reagir, sem medo de cair, sem arrependimento...
Cada lugar que vemos, vivemos, gozamos, é uma parte inseparável de nós, atam nós por toda a nossa existência.
É sobre um desses lugares que os poetas escreverão aqui, saudosos, gloriosos, incomparáveis lugares, que seja onde e quando forem, sempre serão dentro do peito
nostalgia, euforia, carnaval.






“Canção do Exílio”

(Gonçalves Dias )

-fragmento-
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sábia;
As Aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sábia.









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Os concorrentes
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“HEARTLANDS”



(Emanuel Ferreiro)



Viver...
Viver no céu dos teus olhos
Não, mas eu não sou ele

Não sou aquela nuvem
Que viaja para o norte


Viver...
Viver no céu dos teus olhos
Não em qualquer horizonte
Mas envolvido em teus braços
Mesmo que seja num sonho


Viver...
Viver no céu dos teus olhos
Não, eu não poderia ir sem você
Não haveria o que aprender
Meu coração não admite morrer


Viver...
Viver no céu dos teus olhos
Sim, vou mergulhar nesse rio
Que ele me conduza até você
Que ele me conduza até você


Viver...
Viver no céu dos teus olhos
Mesmo que seja num sonho
Que viaja para o norte


Viver...
Viver no céu dos teus olhos
Meu coração não admite morrer
Que ele me conduza até você





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“À la Recherche de Chez moi”




(Reyú Maôro)



Mudaram as estações
Tudo mudou
Parte do bairro se escondeu
Sobraram-me as Lembranças:
Sopros de essência que não captam toda a riqueza de uma real-idade



Meus sentidos trazem o Novo em um Velho conhecido
O gosto do churros de carroça
Tem a vivacidade de ‘Petites Madeleines’
Revivendo as casas coloridas, o chão de calcário preto e branco e a grama verde do parque Guinle e o chafariz cinza do Largo do machado e as rodas de choro vermelhas da São Salvador e as rodas de capoeira negra do mercado azul e o apontador de jogo do bicho da esquina e as ruelas multicolores por mim jamais percebidas e os vizinhos nunca esquecidos, porém jamais lembrados...‘Tudo isso toma forma e solidez’ passando pelo canudo amarelo, saindo de minha água de coco transparente




Les sens chez moi
L’essence c’est moi
Laranjeiras, satisfeito sorriu para mim...




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“TARDE EM RIACHÃO”



(Scott B. Coffe)


Quero passar a tarde
na casa de minha avó.


Ela, matando muriçocas,
reclama da sorte.
Eu, brincando se ser poeta,
peço um cafuné.


Meu avô conversa com os anos.
Oitocentos gatos cochilam no sofá.
As flores de papel murcham
na estante da sala.


O menino entre memórias
pede à avó que faça um mingau de aveia.


E a tarde nunca passa.




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“CASA POEMA”


(Erato Poeta)


Deitado nas palhas das palavras me fiz poeta.
Na casa guardiã do meu corpo.
Casa poema, casa casulo, casa castelo.
As janelas azuis segredavam o céu quando fechadas
e quando abertas, voavam como borboletas
destremeladas pela manhã.
Alecrins perfumavam pés
e o aroma do limoeiro esverdeava a tarde.
Casa da minha infância,
lugar onde eu voltava, depois de imaginária errância.
Minha casa livro,
onde eu lia nas paredes o enigma das sombras.
Rodeada de pés de beijos, escurecia lilás.
Ensinou-me a ser caracol e a levá-la por onde for.
Ensinou-me que habitar a mim mesmo é o caminho
primeiro do amor.
Sou casa poema,
onde no alpendre dos sonhos quaram palavras.
As mesmas que ao me vestirem, me despem.



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“Nascente”


(Sofia Amundsen)



Quero viver pra sempre num dia nascente.
Sem nuvem.
Com um sol nascente no horizonte.
Onde frio e calor se complementem,
onde músicas e idéias de esperança
floresçam eternamente.
No ritmo das fracas ondas avermelhadas do mar.


Quero viver num dia nascente pra sempre.
Sem nuvem.
Onde velhos que entenderam a essência da vida,
cortem estradas de barro com meia e tênis.


Quero viver num dia nascente, até morrer.
Até porque o sol nascente lembra um pouco do poente.


No dia nascente vou sempre dar risadas.
Vou rolar na areia fria mal socada...
Com um cão branco a me circundar,
sorrindo, esbaforido de tanto brincar.


Quero viver pra sempre no sol nascente,
onde o poente nunca vai chegar!
Onde ninguém vai me deixar.


E as comidas de minha mãe vão ter gosto de manhã,
gosto de café da manhã.
E eu vou lanchar com um copo na mão e um prato ao meu colo.
E em volta o mato, molhado de sereno.
E nos ares o cantarolar dos pássaros.


Minha mãe de vestido velho, batido, cheiroso...
aconchegante.
No céu o sol nascente.
E em baixo um cão branco que me circunda contente,
Babado...
E nos ares o cantarolar de pássaros...


Nascente pra sempre!
E o poente nunca vai chegar.
E ninguém jamais vai me abandonar.





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“BAHIA DE SÃO SALVADOR”



( J )



Bahia de todos os santos
Terra dos Orixás
Misticismos, corpos cruzados e patuás,
Nas ondas do mar, Iemanjá tem seus encantos.


Mercado modelo atrelado as devoções
liberdades religiosas postas em tabuleiros
vendilhões negociam santos guerreiros
De além mar, terreiros de candomblés, tribos e nações.


Jorge Amado fez poesias com evocação
A sensualidade de Dona Flor, que a todos seduzia
Salvador, cidade das festas e folias
Caymmi fez das dunas de Itapuã o seu divã


Olodum, filhos de Gandhi e afoxés,
Baianas com seus axés deslumbram a Bahia,
Desfilam na praia de afrodisíaca maresia
Molecas com dengos e cafunés.


Gal, Gil e Caetano, formavam os novos Baianos
Caminhando na tropicália da nova geração
Anos da musicalidade, era de transição
Raul Seixas deixou saudades há 10 mil anos.


O Pelourinho é patrimônio tombado
Ruas do anonimato aos sons dos tambores
Pedras do passado lavadas com sangue e dores
No tronco, no dorso, sibilante chicote orquestrado.


Eleva o elevador Lacerda, tornando leve as tristezas
Da Cidade Baixa a Praça da Sé
No alto, a Igreja do Bonfim, fiéis têm a sua fé
Lavam as escadarias do sincretismo, das alegrias e purezas.


Salvador de além mar, da África vem a tradição
Um dia, na noite hei de voltar
Como preto velho cirineu ou orixá
O mar que nos separa, é o elo de ligação.



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“Tapera Imaginária: Impalpável Poeira de Sonhos”





(Turrinha)





Ruazinha única, intangível

Espreguiçando braços norte/sul

De impossível casario abstrato

O aço e concreto de meus novos pés

Não pisam mais!




O teu cheiro característico

De mil dálias e tachos fumegantes

Cicatrizou-se sobre a fumaça

Das fábricas.  Lembranças corrompidas.




O vespertino balé dos burricos

No ritual de exorcizar fantasmas

De cangalhas e chibatas

Inviabilizava o trânsito. Saiu de cartaz...




De localização inexata

Pois que a norte do sonho

Além da curva do imaginário,

Retorno não há!




Sem correspondente para o teu nome,

No meu neo-dialeto urbano,

Razão porque rebatizo-te: SAUDADE!





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“o caminho”



(Cachorro de Rua)




um caminho no campo
bem no meio de uma serie de morros
como corcovas de camelo
por onde corria o menino
num sobe e desce de tobogã
no final uma rampa
de uns três metros de altura
a beira do rio onde os homens
tiravam areia
era correr e se jogar de cabeça
nas aguas barrentas
que deixavam os cabelos duros
um mergulho prum outro mundo
pescar traíra, piaba
pegar cana
enganar o ronda
só não dava pra enganar o tempo
que fazia o menino crescer.



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“Origem Imperial”



(Andrade)




Da Feira,
Os paraíbas
Da Barreira do Vasco,
Bala perdida
Do Museu Nacional,
Histórias vencidas
Da Quinta,
Mulheres da vida
Do apartamento ocupado,
Infância tolhida
Dos meus pais,
Trabalho e dívida.
Do primeiro amor,
Primeira ferida
Do 274,
Gente espremida

...

Das recordações,
Saudade garantida.



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“CAMINHO DA SAUDADE”



(Annie Alexandre Guerra)



Como descrever a infância
no lugar que tem gosto
das flores que comi?


Entre as doze casas de uma vila,
agora caminho e escrevo.
Represento em versos
cada lágrima que
por ela cai de saudade.





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“Enfeitiçada pela Vila”



(Bené)



Terra de Noel, que saudade!
Da fábrica de tecidos,
E das mulheres que obedeciam a suas chaminés.
Da malandragem sadia,
Do samba de primeira,
Das conversas nas calçadas,
Serenatas nas noites de estrelas...


E como era lindo o Boulevard!
Ponto de encontro dos poetas
Sonho poético da minha mocidade...
Quem sabe um dia eu lá,
Quem sabe um dia...



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“quintal”


(Dante Pincelli)



no quintal da minha casa
quando, às vezes, me distraio
pardais dividem os pedaços de pão
colocados ao acaso
sempre no mesmo lugar
no quintal da minha casa...


no quintal da minha casa
quase todas as coisas tem asas
borboletas sobre margaridas e flores do mato
gafanhotos que devoram bertalhas
e toda a imaginação que voa à solta, sem pressa
no quintal da minha casa...


no quintal da minha casa
o peito arde em brasa
quando penso em fazer nada
ouvindo uma música silenciosa
tocando insistentemente
entre a mangueira e o banco da varanda...


no quintal da minha casa
me entorpeço com o cheiro da erva cidreira
olho o verde das bananeiras
às vezes, repico o sino
só pra quebrar a maravilhosa monotonia...


contemplo parado meu jardim
de trevo de quatro folhas...
esmiúço os mais longínquos
cantos do pensamento
e tento organizar o quebra cabeças
da minha memória
remonto todas as fases emocionantes
da minha história...


me aborreço e me alegro
no caminho de pedras
que montei enquanto chovia
e eu cantava
no quase perfeito
lado direito
de quem entra
do quintal da minha casa...








14 comentários:

  1. Andrade meu querido você conseguiu novamente, muito bom, parabéns. Seu poema tem belos acontecimentos ritimicos, amei! Um abraço. Voto 58.

    Erato Poeta seu poema é bem visual, nos transporta ao feixe de palha, para deitado ouvir poesias, muito bom, amei! Um abraço. voto 56

    Parabéns a todos.

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  2. Voto na residência poética das palavras...

    "As mesmas que ao me vestirem, me despem."

    de Erato Poeta com 57 pontos.

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  3. Scott, Turrinha, Bené, Erato... Nossa que difícil.

    Fico com Erato Poeta com 57,5 pontos.

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  4. (Vladimir Maiakovski)8 de maio de 2012 15:41

    EU

    Nas calçadas pisadas
    de minha alma
    Passadas de loucos estalam
    calcâneo de frases ásperas
    Onde
    forcas
    esganam cidades
    e em nós de nuvens coagulam
    pescoço de torres
    oblíquas

    soluçando eu avanço por vias que se encruz-
    ilham
    à vista
    de cruci-
    fixos

    policias

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  5. Obrigado ao primeiro anônimo. Fico feliz por curtirem o meu poema.
    Essa semana vai ser difícil manter a ponta, rs.

    Abraços poéticos,

    Andrade

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  6. Por nada querido vc merece 1º anômimo.. Abraços.

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  7. Todos merecem! Rodada super apertada. Belos poemas!
    Erato, vc é o ganhador da rodada, isso é, se a tal Maria de Lourdes não ferrar tudo! Parabéns a todos.

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  8. A Maria de lourdes é a mais sensata dos jurados, não fica fazendo média como uns aí.
    Continue assim Dona Maria.

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  9. Dante, seu poema foi o fechamento perfeito para uma rodada excelente! Lindo poema!!!

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  10. Obrigado Camila, esse poema é de 1989, quando eu morava em Belford Roxo, e é tudo verdade, talvez seja este (a verdade) o ingrediente que o faça soar tão bem.

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  11. 1989, ano que nasci...

    Aposto no Erato Poeta, com 56.

    abs!

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  12. Parabéns a todos os Escritores, Lindos Poemas, Valeu Dante pela iniciativa, Viva a Poesia!

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  13. Jorge Luiz

    Parabens Dante, todas as poesias são muito bonitas.

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